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Igreja Centrada

Dicas de livros – Sinopse 

igreja_centrada_gEm Igreja centrada, Timothy Keller — com mais de vinte anos de experiência ministerial em Nova York — oferece percepções desafiadoras e levanta questões provocativas. Por meio da aplicação de doutrinas clássicas ao nosso tempo e contexto, Keller descreve de forma concisa e direta uma visão teológica para o ministério, organizada em torno de três compromissos fundamentais:

Centralidade do Evangelho. O evangelho da graça de Jesus Cristo muda todas as coisas, desde o coração do homem até o mundo inteiro, o que inclui também nossa comunidade. Ele transforma completamente o conteúdo, o tom e a estratégia de tudo o que fazemos.

Centralidade da Cidade. Cada vez mais, os grandes centros urbanos influenciam nossa cultura global e impactam nossa forma de executar o ministério. Adotando uma maneira positiva de enxergar a cultura, aprendemos a afirmar que, para o ministério que brota do evangelho, as cidades são lugares maravilhosos e estratégicos e ainda com grandes oportunidades de serviço.

Centralidade do Movimento. Em vez de criar nossa própria tribo, buscamos, guiados pelo Espírito Santo, a prosperidade e a paz da nossa comunidade. 

A necessidade da integridade na caminhada cristã

Marcio Simão de Vasconcellos

Um dos maiores riscos que qualquer ser humano tem de enfrentar é o de perder sua própria identidade, isto é, perder-se de si mesmo. Essa
perda implica na ausência de integridade, isto é, na falta da inteireza de vida diante de Deus e do próximo. Alguém já disse que quando não sabemos quem somos, todo o restante simplesmente perde o sentido. Este parece ser o mal do qual sofre boa parte dos cristãos da atualidade. Especialmente pastores e líderes. Não sabemos mais quem somos e muito menos a que viemos. Por isso, esforçamo-nos a responder perguntas que ninguém está fazendo.integridade imagem

O conceito de que a Igreja é uma sociedade cooperativa que existe para beneficiar seus não membros tem sido esquecido nestes dias. As
paredes de algumas de nossas igrejas têm se tornado cada vez mais grossas e altas. No lugar de ser sal da terra e luz do mundo, preferimos nos fechar dentro de nossas vidas comunitárias, produzindo luz e sabor apenas para nossos próprios olhos e paladares

Pensar, portanto, em quem somos ou quais são as nossas prioridades, é fundamental, se quisermos fazer alguma diferença a
o nosso redor. A missão cristã é precedida pela integridade em Deus. Se não buscarmos esse entendimento, mesmo que saiamos ao mundo, não vamos saber o que falar a ele, pois não saberemos qual a nossa identidade nem para que servimos. Nesse sentido, vale perguntar: afinal, para que somos chamados?

Nossa principal prioridade e chamado é viver em comunhão com Jesus. Somos vocacionados à liberdade de pertencer a Jesus Cristo. Parece algo paradoxal, mas segundo o evangelho, a liberdade humana é dom do próprio Criador e encontra sua plenitude nele. Santo Agostinho, nas suas Confissões, já afirmava: “Fizeste-nos, Senhor, para Ti e nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti”. Por isso, tudo o que fazemos na obra de Deus é resultado desse envolvimento, nunca um meio para garantir o favor de Deus ou dos homens. Na verdade, só amamos a Deus porque, antes, enquanto éramos inimigos, fomos amados pelo Senhor. Nosso amor é sempre resposta à proposta amorosa do Pai.

Lutero, o reformador alemão, entendia que a principal motivação do ministro é permanecer em comunhão com Deus através da oração e meditação em Sua Palavra. Desta intimidade com Deus brotava toda a ação pastoral. Quando deixamos esta atitude de lado, rapidamente passamos a depender apenas de nossos próprios esforços. E, ao fazer isso, trocamos o auxílio do Espírito Santo por técnicas de marketing muito bem produzidas. Afinal, se isto tem enchido igrejas, por que mudar? Nesse sentido, é preciso perceber que, em nossos dias, existe o perigo extremo do profissionalismo tomar o lugar do ministério. Vivemos numa época onde o culto à personalidade tem se infiltrado na Igreja, fazendo de alguns verdadeiras celebridades cristãs. São os “grandes servos de Deus”, um paradoxo ao qual nos damos direito. Os cultos já não são centrados em Jesus, mas sim em pessoas. As palavras de João Batista, “convém que Ele cresça e que eu diminua”, já não têm validade para muitos.

O que precisamos entender de fato e de uma vez por todas é que sucesso não significa necessariamente aprovação de Deus. O sistema mundano apresentou um conceito de sucesso à Igreja que foi absorvido por ela. Hoje, pastores são medidos pelo tamanho de suas igrejas e não pelos frutos de amor, fé e alegria que seus membros evidenciam. O importante, para alguns, é contar quantos nomes estão fichados no rol de membros de suas igrejas (e, talvez, mais importante: saber quantos são dizimistas), sem se importar em conhecer quem são estas pessoas ou quais dificuldades elas enfrentam. É bom lembrar que quando Paulo elogiava uma igreja, ele sempre fazia referência à presença dos traços do caráter de Jesus nela, porque é isto o que importa.

Quando este entendimento norteia a nossa vida cristã, pouco importa a luta enfrentada. Sabemos quem somos. E, mais importante, a quem pertencemos. A questão principal, então, é a presença ou não em nossas vidas de uma integridade diante de Deus e dos homens. Quando ela existe, tudo o que fazemos, seja na igreja, em casa ou no trabalho secular, tem o brilho da eternidade.

Trabalhar na obra de Deus nunca foi fácil. E, dentre as inúmeras dificuldades enfrentadas, está o perigo de esquecer que não somos Deus, e Ele não precisa de nós. Muitos pastores que negligenciam suas famílias em função de uma suposta chamada para a obra de Deus, fazem isto por não terem consciência desta verdade. Infelizmente, famílias são destroçadas em nome de um deus mesquinho e exigente, que dá aos seus servos um fardo que ninguém pode suportar: o fardo de buscar sua aprovação mediante trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana, sem direito a descanso.

O Deus do Evangelho não é assim. Pelo contrário, é Ele mesmo quem convida seus servos ao descanso e dá a eles um fardo leve e suave. Buscar a integridade envolve confiar que este descanso que Deus nos oferece é o que nos leva a não inverter prioridades em nossa vida.

O texto de uma das cartas às igrejas no Apocalipse, muito usado em pregações evangelísticas, fala de Jesus batendo na porta, querendo entrar a fim de manter comunhão. Esquecemo-nos de que estas palavras e esta atitude de Jesus foram dirigidas a cristãos. Somos nós que estamos doentes. Somos nós que precisamos desesperadamente da graça de Deus. No entanto, muitas vezes, trancamos o médico do lado de fora de nossas vidas. Ele bate desejando entrar, mas nós não O ouvimos.

É preciso repensar a razão de nosso ministério cristão. Se não pararmos para verificar se Jesus está presente, inverteremos nossas prioridades e colheremos os frutos amargos de quem não soube ser íntegro em Deus.


[1] Doutorando em Teologia Sistemático-pastoral (PUC-RJ); Mestre em Teologia Sistemático-pastoral (PUC-RJ); especialista em Ciências da Religião (FATERJ); graduado em teologia (STBSB e UMESP). Pastor batista. E-mail: marciosvasc@gmail.com

Abertura para a Esperança

DEIVIS MACEDO

Ao olharmos para o mundo que nos cerca podemos facilmente ser tomado pelo medo, pela angústia ou pela sensação de desamparo. Um minuto de atenção para o cenário que nos cerca e percebemos um mundo cada vez mais caótico e sem respostas. Um mundo que muda cada vez mais rápido.

Este cenário de “desordem aparente” traz um desconforto para todos que percebem esta realidade. Então, como explicar e organizar o mundo que habitamos? Perguntas como estas são feitas por muitos e acompanham a história humana.

esperançaCertamente pior que a desordem que nos atinge seja a percepção da presença do mal [1]. O sofrimento e a finitude a que somos confrontados em nossas vidas faz-nos por muitas vezes duvidar de nossa fé. Quantas vezes fomos abalados pela dúvida quando afrontados pelo inexplicável da vida? Certamente estes questionamentos podem nos fazer duvidar. E, em muitas vezes deixamos de crer.

Deixamos de crer no outro, pois temos a clareza da capacidade de destruição que produzimos. Deixamos de crer nos sistemas, pois estes estão se especializando na exploração. Não queremos crer na política, pois cada vez mais sabemos de sua suscetibilidade e limitações. A religião é ponto de imenso descrédito, pois, para a mente moderna, é algo aprisionador. Cada vez mais nos tornamos um mundo sem esperança, não conseguimos ver um novo amanhecer. E em todas estas situações, na maioria das vezes quando recorremos a Deus, nos vem à imagem de o ser extramente irado com nossos erros e que necessita de nossa dor e sofrimento para, somente então, não exterminar nossa existência.

Faz-se, portanto urgente resgatarmos a fé e a esperança em nossos corações. Note que não destacamos que necessitamos de procurar respostas para nossas dúvidas, estas podem ser movimento segundo. No primeiro instante devemos nos abrir para perceber a verdadeira presença de Deus em nossa caminhada. Deus que encarnou nossa realidade e sofrimento de forma radical, e que “enquanto durar a história, o homem-Deus sofre como nós e conosco” [2].

Neste sentido a teologia tem fundamental contribuição. Ela é quem pode discutir para além dos limites da racionalidade. Ver com outros olhos e nos ajudar a entrar na dimensão da graça que é o próprio Deus. Neste caminho somos nós quem falamos de vida, pois nos abrimos a orientação do Espírito Santo, que é Espírito de Vida, e este, nos enche novamente de esperança e fé. O Deus Trino vem a nós para nos resgatar em nossas aflições e nos restaurar a vida.

Mesmo com este papel a teologia deve se apresentar como serva humilde, pois ao contrário do que se pode pensar, a teologia não pretende, e muito menos conseguirá todas as respostas. A teologia é produção humana, ou seja, nasce em meio a nossa cultura e em nosso tempo, logo, mesmo falando do absoluto de Deus, estará imersa em sua finitude e limitação, apresentando inclusive suas próprias crises [3].

Este aspecto de limitação não enfraquece a teologia [4], pelo contrário: sua limitação histórica deve ser sempre entendida em sua maior radicalidade, de outra maneira estaríamos com respostas para perguntas que não são mais feitas, ficando presos a dogmas e santificando doutrinas, e, o que é ainda pior, atônito com as demandas de nossa época atual. Temos que sempre ter ouvidos atentos ao Espírito que nos move e ao clamor do mundo. Ao nos fecharmos para uma dessas vozes não mais conseguiremos ser relevantes e abandonaremos o principal aspecto da revelação de Deus em Jesus de Nazaré, a encarnação.

É na encarnação do Cristo que temos revelado a verdadeira face de Deus, o Abbá. Pai que não desampara e sempre permanece em postura de espera pelo filho. Pai que busca e sofre com a criação, que também chora as dores do mundo.

Aqui está onde por muitas vezes erramos: apagamos o bem e a esperança e supervalorizamos a maldade e o sofrimento. Não podemos negar a presença do mal, ele é perceptível em nossa realidade humana desde o início. Por muitas vezes ficamos perplexos e completamente sem respostas mediante eventos assombrosos, e, certamente nos perguntamos algumas vezes: “onde está Deus agora?”. A religião ajudou a criar uma imagem de Deus distante e com um espírito vingativo insaciável. É justamente esta imagem de Deus que não cabe mais no pensamento moderno.

O que precisamos mais uma vez, é perceber que “uma luz vem iluminar a nossa noite. Ela nos faz ver que Deus sofre conosco” [5]. Perceber e notar a ação silenciosa de Deus, que sempre, em movimento de esvaziamento, não busca apara si poder ou ser impõem sua vontade, antes, se faz simples e se coloca como solidário por nós em nossa busca por sentido. Encher o nosso coração e esperança, na certeza da aurora garantida por Cristo. Termino com a Delumeau que expande nossos sentidos ao afirmar “a Bondade está presente no mundo. É preciso aprender a vê-la” [6].

Deivis Macedo.
Graduado em Farmácia – UNIGRANRIO 2004,
MBA em Gestão de Pessoas – FGV 2010
Pós em Teologia e Ministério com Juventude – FLAM 2014
Formando em Teologia pela UNIGRANRIO.
Membro da PIB de Agostinho Porto desde 2009, atualmente servindo com
Coordenador de Juventudes na Igreja Local.
Casado com Elaine Macedo.
blog: www.deivismacedo.com


[1] “o mal, a infelicidade e o sofrimento são partes de nosso universo. Desde antes da presença do homem na Terra, eles já existiam. A ‘lei natural’ reza que os animais se devorem uns aos outros. (…) A vocação do homem é precisamente ir contra esta ‘lei natural’, ao menos em suas relações com seus semelhantes, aprendendo a coabitar com eles e a recusar toda a violência”. Ibid., pg., 102.

[2] DELUMEAU. Jean. À espera da Aurora. Um Cristianismo para o amanhã. p., 111.

[3] Como destaca FERRARO. Benedito. Teologia em tempo de crise. p., 167-186 IN Teologia Aberta ao Futuro. Edições Loyola.

[4] A teologia tem com foco apontar para a ação de Deus em seu tempo, assim, se permanecer ligada e presa ao passado estará negando sua vocação. A religião é espaço privilegiado da teologia e, espaço garantidor para a experiência e fé, no entanto, muitas vezes na história tem agido com lugar de opressão e de manutenção do status quo. Neste sentido Delumeau destaca e alerta que “as religiões, especialmente o cristianismo, não poderão permanecer imóveis. Eles deverão necessariamente ou morrer ou inovar para se adaptar a uma realidade sempre movente”. Ibid., p., 35.

[5] Ibid., p., 113.

[6] Destaque nosso. Ibid., p., 118.